Cartas da Gestão

Carta da Gestão | Maio de 2026

23/6/26

Prezados investidores,

Maio foi um mês marcado por um aparente paradoxo. Enquanto os dados de atividade econômica continuaram demonstrando resiliência em diversas regiões do mundo, os mercados passaram a questionar se essa mesma força não estaria retardando o processo de convergência inflacionária observado ao longo dos últimos trimestres.

A narrativa dominante deixou de ser exclusivamente sobre quando os bancos centrais irão reduzir juros e passou a incorporar uma questão mais profunda: qual será o novo patamar estrutural das taxas de juros em um mundo caracterizado por maior fragmentação geopolítica, déficits fiscais elevados e cadeias produtivas menos eficientes.

O ambiente segue distante de uma recessão global, mas também não apresenta os elementos que tradicionalmente sustentam ciclos prolongados de expansão. O resultado é um cenário de crescimento moderado, inflação resistente e elevada sensibilidade dos mercados a qualquer revisão de expectativas.

Brasil

Crescimento forte, inflação resiliente e o desafio do Banco Central

No Brasil, maio foi marcado pela divulgação de um conjunto de dados que reforçou a robustez da atividade econômica. O PIB do primeiro trimestre surpreendeu positivamente, impulsionado pelo consumo das famílias, pela expansão do investimento e pelo desempenho favorável do agronegócio. O mercado de trabalho permaneceu resiliente, enquanto indicadores de crédito e atividade continuaram apontando uma economia operando acima das expectativas observadas no início do ano. Entretanto, a mesma força que sustenta o crescimento também impõe desafios à política monetária.

O IPCA-15 voltou a superar o limite superior da meta de inflação, evidenciando que o processo desinflacionário foi de fato revertido. Embora parte dessa pressão esteja concentrada em componentes específicos, os núcleos de inflação seguem incompatíveis com uma convergência rápida para o centro da meta. Nesse contexto, a comunicação do Banco Central ao longo do mês adotou tom mais cauteloso. A discussão deixou de ser a velocidade dos cortes e passou a ser a profundidade do ciclo de flexibilização monetária. Para o investidor, o cenário permanece caracterizado por três elementos centrais:

• atividade econômica resiliente

• juros reais estruturalmente elevados

• necessidade de seletividade crescente na alocação doméstica

O principal desafio continua sendo a interação entre crescimento, inflação e risco fiscal, fator que mantém pressão sobre os vértices mais longos da curva de juros

Estados Unidos

O retorno da discussão sobre juros estruturais

Nos Estados Unidos, maio foi mais um mês paradoxal para os seus mercados. A inflação e seus núcleos seguem pressionadas e estagnadas próximos a 3% ao ano, com os efeitos do fechamento do Estreito de Ormuz no preço do petróleo ainda se disseminando pela economia, ainda que a atividade e o mercado de trabalho se mantêm firmes, afastando riscos maiores de recessão por enquanto. Observando este cenário, o Federal Reserve se vê num impasse entre qual caminho a política monetária e a condução dos juros devem seguir, num momento onde a reaceleração da inflação reintroduz a possibilidade de algum novo aumento nos fed funds num momento que o custo da dívida americana, bem como sua trajetória, se encontra cada vez mais em níveis críticos. Mesmo neste ambiente de alta incerteza e pressão nos juros, onde observamos uma abertura relevante nos vencimentos longos em maio, a bolsa americana, num paradoxo, estendeu a excelente performance observada em abril para maio, renovando máximas históricas suportadas pelas teses de IA e pelo enorme otimismo na capacidade de geração de lucros das principais empresas ligadas à tecnologia. A renda variável americana parece ignorar toda a tensão geopolítica no Oriente Médio, com seus investidores preferindo focar nos resultados práticos dos balanços de suas empresas a dispender mais energia tentando prever algum desfecho entre as negociações entre EUA e Irã.

China

Crescimento apoiado no setor externo

A economia chinesa continuou apresentando sinais mistos ao longo de maio. Por um lado, as exportações permaneceram robustas, beneficiadas pela competitividade industrial do país e pela busca global por fornecedores alternativos em diversos segmentos manufatureiros. Por outro, os desafios estruturais permanecem evidentes. O mercado imobiliário continua em processo de ajuste, a confiança dos consumidores segue moderada e a demanda doméstica ainda não assumiu papel suficientemente forte para substituir o impulso vindo do setor externo. As autoridades mantiveram postura pragmática, combinando estímulos direcionados e gestão cuidadosa do câmbio, evitando medidas excessivamente agressivas. O principal ponto de atenção continua sendo a capacidade da economia chinesa de migrar para um modelo de crescimento menos dependente de exportações e investimento em infraestrutura.

Europa

Crescimento limitado e busca por competitividade

A zona do euro seguiu apresentando crescimento modesto durante maio. A inflação continua avançando na direção desejada pelo Banco Central Europeu, mas a atividade econômica permanece frágil em diversos países do bloco. Mais do que uma questão cíclica, o debate europeu tem assumido caráter estrutural. A combinação de custos energéticos elevados, envelhecimento populacional, desafios de produtividade e aumento da concorrência internacional tem pressionado a competitividade da região. Nesse contexto, os formuladores de política econômica enfrentam o desafio de estimular crescimento sem comprometer a estabilidade fiscal e monetária construída ao longo das últimas décadas.

Global

Fragmentação geopolítica e o novo prêmio de risco

Maio reforçou uma tendência que vem se consolidando nos últimos anos: a crescente fragmentação da economia global. As tensões geopolíticas no Oriente Médio, a competição estratégica entre Estados Unidos e China e a adoção de políticas industriais mais agressivas continuam alterando a dinâmica do comércio internacional. O mundo não está abandonando a globalização, mas certamente está migrando para uma versão menos eficiente dela. Cadeias produtivas mais redundantes, busca por segurança energética e reindustrialização de setores estratégicos aumentam a resiliência dos países, mas também elevam custos. O resultado é um ambiente em que:

• a inflação estrutural tende a ser mais elevada

• os juros neutros podem permanecer acima da média histórica

• a volatilidade passa a ser característica permanente dos mercados

Considerações Finais

Maio reforçou uma percepção que vem ganhando força ao longo de 2026: o cenário atual não é compatível nem com pessimismo extremo nem com otimismo irrestrito. A atividade econômica global continua demonstrando capacidade de adaptação, mas os desafios relacionados à inflação, ao endividamento público e à reorganização geopolítica permanecem relevantes. Nesse ambiente, acreditamos que a geração de retorno continuará dependendo menos da direção geral dos mercados e mais da capacidade de identificar assimetrias, selecionar ativos de qualidade e manter disciplina na gestão de risco.

Seguimos priorizando:

• preservação de capital

• busca por assimetrias favoráveis

• seletividade crescente na alocação

Mais do que antecipar o próximo movimento do mercado, o momento exige consistência na execução e capacidade de navegar um ambiente caracterizado por incertezas persistentes.

Atenciosamente,
Leonardo Losi
Yasmin Costa
Lucas França

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