Cartas da Gestão

Carta da Gestão | Dezembro de 2025

30/12/25

Prezados investidores,

O encerramento de 2025 nos presenteou com um cenário macroeconômico que é, ao mesmo tempo, desafiador e repleto de contradições. Dezembro não foi apenas um mês de balanços, mas de decisões que consolidaram a divergência de políticas monetárias globais e expuseram a cautela excessiva de alguns bancos centrais. Se, por um lado, o Brasil se manteve firme na Selic a 15%, por outro, o fluxo de capital estrangeiro e a efervescência de novos produtos de investimento domésticos indicam que o mercado está se movendo mais rápido do que as autoridades monetárias. A seguir, destrinchamos os principais movimentos do mês, com a análise crítica que guia nossas decisões de alocação.

Brasil

A Selic a 15% e o Preço da Cautela

No Brasil, o Copom manteve a Selic em 15,00% a.a., reafirmando a necessidade de uma "restrição monetária maior e por mais tempo". A justificativa é a desancoragem das expectativas de inflação futura, apesar de o IPCA ter fechado 2025 dentro da meta (4,32%). Essa postura ultraconservadora tem um custo: o PIB modesto (projeção de 2,26%) e a manutenção de um carry trade que atrai o capital externo, mas asfixia o investimento produtivo interno.

Inflação e Câmbio

No Brasil, os indicadores de inflação surpreenderam positivamente no curto prazo. O IGP-M encerrou o ano com deflação acumulada, refletindo a dissipação das pressões de custo ao longo das cadeias produtivas e a acomodação de preços de insumos. Apesar de, à primeira vista, esse movimento parecer benigno, ele carrega uma leitura menos confortável: a deflação ampla tende a sinalizar perda de dinamismo econômico e excesso de capacidade ociosa. A ausência de pressão inflacionária, nesse contexto, não decorre apenas de eficiência produtiva, mas também de uma demanda mais fraca, o que limita a sustentação de um crescimento mais robusto.

No mercado cambial, o real apresentou apreciação relevante ao longo de 2025, com o dólar encerrando o ano em patamar significativamente inferior ao observado no início do período. Esse movimento foi influenciado por fatores externos, especialmente a condução da política monetária americana, além de fluxos financeiros oportunistas em busca de retorno em mercados emergentes. Ainda que o câmbio mais apreciado contribua para o controle inflacionário, ele também expõe a economia a uma dependência maior do humor internacional, podendo se reverter rapidamente diante de choques externos ou mudanças na percepção de risco.

O Rali do Ibovespa: Gringos na Festa, Local na Janela

A contradição mais gritante de dezembro foi o recorde do Ibovespa (acima de 164 mil pontos) impulsionado por um fluxo estrangeiro robusto (saldo anual de R$ 28 bilhões), enquanto o investidor local (varejo e institucional) sacava um volume recorde de fundos de ações (R$ 52,8 bilhões).

O investidor estrangeiro surfa a onda da bolsa brasileira por dois motivos: a Selic alta (que valoriza o Real e aumenta o retorno em dólar) e a percepção de que as ações brasileiras estão baratas (P/L projetado de 10,4, abaixo da média histórica). O investidor local, por sua vez, é seduzido pela renda fixa que paga 15% ao ano, optando pela segurança em detrimento do risco

FIDCs em alta

No Brasil, a democratização do crédito estruturado é um fenômeno notável. O número de investidores de varejo em FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) cresceu mais de 14 vezes em um ano [8], impulsionado pela mudança regulatória da CVM que permitiu o acesso às cotas seniores (mais seguras)

Estados Unidos

O Dilema do Fed: Entre o Emprego e a Inflação "Atrasada"

A decisão do Fed de cortar os juros pela terceira vez, para a faixa de 3,50% a 3,75% a.a., foi um aceno claro ao mercado de trabalho, que mostrava sinais de enfraquecimento. No entanto, essa decisão carrega uma dose de risco, especialmente com a inflação (CPI) ainda em 3%, acima da meta de 2%.

O ponto de inflexão para o mercado em dezembro foi a expectativa pela divulgação do PCE (Índice de Preços para Despesas com Consumo Pessoal), o indicador de inflação preferido do Fed. Atrasado devido ao shutdown do governo, o PCE é a peça que faltava para calibrar as apostas.

China

A Resiliência Chinesa e a Democratização do Crédito

Dois movimentos laterais, mas cruciais, marcaram o mês. No cenário global, a China demonstrou uma resiliência surpreendente ao registrar um superávit comercial recorde de US$ 1 trilhão, mesmo em meio à guerra comercial. A estratégia chinesa de redirecionar exportações, usar o transbordo via países como México e a desvalorização do Yuan provam que a China está disposta a pagar o preço de manter sua máquina exportadora a todo vapor, mesmo que isso pressione a deflação interna.

Global

Na Europa, observou-se uma redução expressiva dos prêmios de risco de países historicamente considerados periféricos, como Itália e Espanha. A compressão dos spreads soberanos reflete tanto avanços fiscais pontuais quanto, principalmente, a busca global por ativos com maior retorno em um ambiente de juros em transição. Apesar do alívio financeiro, o crescimento econômico europeu permanece modesto, e a sustentabilidade desse movimento depende de reformas estruturais que ainda avançam de forma lenta.

Na Ásia, a política monetária seguiu um tom mais estável. A Coreia do Sul encerrou o ano com inflação em linha com a meta e juros mantidos, sinalizando que o ciclo de ajustes pode estar próximo do fim. Essa estabilidade, embora positiva, também revela a postura defensiva dos bancos centrais asiáticos diante de um cenário externo incerto e de um comércio internacional menos dinâmico.

De forma mais ampla, dezembro reforçou a percepção de uma economia global caminhando para um período de crescimento abaixo do potencial, com riscos assimétricos. Tensões comerciais, fragmentação geopolítica e mudanças nas cadeias globais de produção continuam a limitar ganhos de produtividade e a aumentar a sensibilidade das economias a choques externos.

Encerramos 2025 com um cenário que exige disciplina, seletividade e leitura cuidadosa dos sinais macroeconômicos. O ambiente não é de crise iminente, mas tampouco de expansão confortável. A combinação de crescimento moderado, política monetária ainda restritiva em termos históricos e elevada incerteza global tende a manter os mercados voláteis, exigindo uma postura ativa e prudente na alocação de recursos ao longo de 2026.

Atenciosamente,

Leonardo Losi
Yasmin Costa

Carta da Gestão n.03 - Dezembro 2025 - Vela Capital