Cartas da Gestão

Carta da Gestão | Fevereiro de 2026

1/3/26
Prezados investidores,

O mês de fevereiro de 2026 foi caracterizado por um ambiente macroeconômico global ainda condicionado por políticas monetárias restritivas, tensões comerciais crescentes e heterogeneidade nos ritmos de atividade entre as principais economias. A combinação de inflação resiliente em determinadas jurisdições, desaceleração cíclica em outras e ajustes nas cadeias globais de comércio moldou um cenário de elevada sensibilidade dos mercados financeiros a dados correntes e sinalizações de política econômica.

Brasil

Política Monetária Restritiva, Resiliência Inflacionária e Reprecificação da Curva de Juros em Ambiente de Incerteza Fiscal

No âmbito doméstico, a condução da política monetária permaneceu firmemente orientada à convergência inflacionária. O Banco Central do Brasil manteve a taxa Selic em patamar significativamente contracionista, ao redor de 15% ao ano, refletindo avaliação de que as expectativas inflacionárias ainda demandam ancoragem adicional. Embora indicadores recentes apontem desaceleração marginal dos índices cheios, os núcleos de inflação — especialmente em serviços — permanecem resilientes, sustentados por um mercado de trabalho ainda aquecido e hiato do produto relativamente estreito.

A estrutura a termo das taxas de juros seguiu incorporando prêmio de risco fiscal relevante, em função das incertezas quanto à trajetória estrutural das contas públicas e à credibilidade do arcabouço fiscal no médio prazo. Nesse contexto, a despeito de todos os indicadores observados (ainda que, por vezes, conflitantes), a precificação de cortes futuros de juros na próxima reunião do Copom é dada como certa.

No setor externo, observou-se contração expressiva das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, fenômeno associado tanto à desaceleração da demanda norte-americana quanto à persistência de fricções comerciais e reorganização das cadeias globais de produção. Em contrapartida, a China manteve-se como principal destino das exportações brasileiras, contribuindo para a sustentação do superávit comercial. Ademais, os avanços institucionais na ratificação do acordo Mercosul–União Europeia reforçam, em perspectiva estrutural, o potencial de ampliação da integração comercial e de atração de investimento estrangeiro direto, ainda que seus efeitos macroeconômicos dependam do cronograma efetivo de implementação.

Brasil: Entre o Vigor do Consumo e o Peso dos Juros Altos

O IBC-Br, frequentemente chamado de "prévia do PIB", encerrou 2025 com um crescimento de 2,5%, consolidando um ano de resiliência para a economia brasileira. O resultado de dezembro confirmou que a atividade econômica manteve o fôlego mesmo diante de uma política monetária restritiva, impulsionada principalmente pelo vigor do setor de serviços e pelo consumo das famílias, que se beneficiaram de um mercado de trabalho aquecido. Para o investidor, esse resultado funciona como uma demonstração de tração do mercado interno, comprovando que a economia conseguiu absorver o impacto dos juros elevados e entregar um desempenho superior ao que as projeções mais céticas indicavam no início do ano.

Entretanto, esse crescimento traz um desafio para o Banco Central e para o preço dos ativos domésticos. Uma atividade econômica que encerra o ano "aquecida" dificulta a queda da inflação, o que pode forçar o BC a manter a taxa Selic em patamares elevados por mais tempo para evitar um superaquecimento. Na gestão do portfólio, isso nos exige cautela: embora empresas focadas no consumo interno possam lucrar mais com essa economia forte, o custo da dívida para essas companhias continuará alto.

Estados Unidos

Overview Americano

Fevereiro foi um mês de bastante volatilidade no mercado americano. Apesar da temporada de resultados positiva, com a maioria das empresas reportando resultados em linha ou acima das expectativas, a reavaliação do mercado em relação ao risco potencial que a IA oferece aos modelos de negócios das grandes empresas de software, substituindo grande parte de seus serviços, abalou o setor como um todo e impactou de forma considerável o S&P500 e Nasdaq. Por outro lado, a decisão da Suprema Corte de considerar ilegal a aplicação de parte das tarifas de importação via decretos de emergência por parte da Casa Branca foi lida como alívio pelos investidores, apesar de levantar questões importantes sobre a possibilidade de as empresas buscarem reaver o valor das tarifas já pagas, como isso se daria e qual seria o impacto nas contas públicas, o que pode exercer ainda mais pressão sobre o dólar e juros longos.

No campo geopolítico, o risco crescente de conflito direto entre EUA e Irã se tornou mais uma fonte de sustentação para o preço do petróleo, em um momento em que Fed voltou a manter cautela sobre os próximos passos em relação à política monetária e reforçar a sua dependência dos dados. Com o mercado de trabalho ainda resiliente e o PCE divulgado para dezembro, índice de inflação preferido pelo Fed, levemente acima das expectativas, apesar do PIB divulgado para o quarto trimestre bastante fraco, a indefinição da política monetária se torna mais uma fonte de incerteza para os investidores de ativos de risco americanos.

Nessa linha, a busca por diversificação em mercados emergentes que ainda apresentam múltiplos historicamente subavaliados em termos de dólar se manteve, principalmente naqueles produtores de commodities como o Brasil, cujo fluxo estrangeiro continua levando o Ibovespa às máximas históricas em real, tendência que tende a se manter com o investidor global cada vez mais buscando proteção em ativos reais e com valor intrínseco. A percepção de risco político e fiscal ainda se mantém entre os investidores locais, que ainda mantém posições em bolsa tímidas e cada vez mais passam a precificar os possíveis cenários para as eleições presidenciais deste ano.

A Reprecificação do Risco Americano

A recente decisão da Suprema Corte dos EUA, que invalidou o uso da IEEPA para fins tarifários, forçou a administração Trump a uma manobra tática: o acionamento da Seção 122 da Lei de Comércio de 1974. Ao substituir decretos unilaterais por uma tarifa global de 10% (podendo chegar a 15%), o governo americano não apenas reduziu a agressividade das alíquotas — que para a China e o México poderiam superar 60% e 25%, respectivamente —, mas também aceitou um limite temporal de 150 dias. Para a gestão de portfólio, essa mudança de base legal altera o prêmio de risco: saímos de um cenário de "protecionismo sem freios" para um modelo de protecionismo institucionalizado, onde o Executivo agora corre contra o relógio para negociar concessões com o Congresso ou enfrentar o fim automático das taxas em cinco meses.

Sob a ótica macroeconômica, a migração para o regime da Seção 122 atua como um mecanismo de compressão de prêmio de risco inflacionário, uma vez que o teto de 10% a 15% é substancialmente menos disruptivo do que o cenário de “guerra” comercial plena anteriormente precificado. Esse arrefecimento nas projeções de preços oferece um suporte tático para o Federal Reserve, aliviando a pressão sobre as taxas de curto prazo; contudo, a sustentabilidade desse otimismo esbarra no 'imbróglio fiscal' dos reembolsos. A potencial devolução de até US$ 175 bilhões em tarifas indevidamente coletadas sob a IEEPA cria um passivo contingente de magnitude sistêmica. Para o investidor, o risco de cauda agora reside na necessidade de o Tesouro Americano financiar esse montante via novas emissões, o que tende a elevar os juros de longo prazo. Como esses juros são a base para calcular o valor das empresas, ativos que dependem de lucros futuros — como os de tecnologia — tendem a se desvalorizar.

China

Estabilização Gradual sob Fragilidades Estruturais e Gestão Prudencial da Política Monetária e Cambial

Na China, a condução da política econômica evidenciou postura de cautela calibrada. O Banco Popular da China manteve inalteradas as taxas referenciais de crédito (LPR), sinalizando preferência por estabilidade financeira diante de um ambiente ainda fragilizado pelo ajuste prolongado do setor imobiliário e por uma recuperação do consumo aquém do esperado. A autoridade monetária adotou, entretanto, medidas de caráter técnico no mercado cambial, reduzindo exigências prudenciais sobre contratos de hedge com o objetivo de mitigar pressões de apreciação do yuan e preservar a competitividade externa.

Do ponto de vista institucional, diretrizes emanadas do núcleo político enfatizaram a necessidade de maior coordenação entre política fiscal, creditícia e industrial para sustentar crescimento e emprego ao longo de 2026. A economia chinesa permanece elemento central na determinação do ciclo global de commodities e no desempenho das economias emergentes exportadoras, o que torna sua trajetória particularmente relevante para o equilíbrio macroeconômico internacional.

Europa (Zona do Euro)

Crescimento Moderado, Desinflação Heterogênea e Persistência de Riscos Geopolíticos

Na zona do euro, o crescimento manteve-se moderado, com evidências de expansão inferior à observada em fases anteriores do ciclo. A inflação apresentou comportamento heterogêneo entre os países-membros, com núcleos ainda pressionados em algumas economias centrais. O Banco Central Europeu preservou postura vigilante, equilibrando a necessidade de consolidação desinflacionária com o risco de aprofundamento da desaceleração econômica.

O debate político em torno da ratificação do acordo comercial com o Mercosul evidenciou divergências estruturais entre países do bloco, especialmente quanto a impactos setoriais no agronegócio e na indústria. Além disso, a persistência de tensões geopolíticas no Leste Europeu continuou a influenciar expectativas de investimento e a manter prêmio de risco sobre ativos regionais, particularmente em segmentos sensíveis a energia e infraestrutura.

Considerações Finais

O mês de fevereiro consolidou um quadro global de transição. As principais economias avançadas mantêm políticas monetárias restritivas enquanto avaliam a sustentabilidade do processo desinflacionário. Simultaneamente, o recrudescimento de medidas protecionistas adiciona camada adicional de incerteza ao comércio internacional e à formação de preços.

Para economias emergentes como o Brasil, o diferencial de juros permanece fator relevante para fluxos de capital, mas a sustentação desse diferencial depende de credibilidade fiscal e de convergência inflacionária consistente. Em síntese, o ambiente macroeconômico internacional segue marcado por elevada dependência de dados, com mercados particularmente sensíveis à dinâmica de inflação, emprego e decisões de política monetária nas economias centrais.


Yasmin Costa
Lucas França
Leonardo Losi


São Paulo, 01 de março de 2026.

Carta da Gestão n. 05 - Fevereiro 2026 | Vela Capital