Carta da Gestão | Janeiro de 2026

Prezados investidores,
O início de 2026 se apresenta como uma extensão natural das tensões e assimetrias que marcaram o encerramento do último ano. Janeiro não foi apenas um período de transição no calendário, mas um mês em que decisões de política econômica, rearranjos geopolíticos e movimentos relevantes de mercado reforçaram a complexidade do ambiente global. A combinação entre mercados acionários em patamares elevados, sinais ambíguos da política monetária nas principais economias e a persistência de riscos fiscais e diplomáticos exige uma leitura cuidadosa, livre de simplificações.
Nesse contexto, observamos um mercado que continua a precificar cenários futuros com rapidez, muitas vezes antecipando inflexões antes que elas se materializem nos dados. Fluxos de capital, reprecificação de ativos e mudanças no equilíbrio entre risco e retorno seguem refletindo não apenas fundamentos econômicos, mas também expectativas, narrativas e posicionamentos estratégicos. Ao longo desta carta, detalhamos os principais eventos que moldaram o período e apresentamos nossa interpretação crítica sobre seus desdobramentos, sempre à luz de uma alocação disciplinada e orientada por assimetria de risco.
Brasil
Alta histórica do IBOVESPA e fluxo de capital estrangeiro
Nas últimas semanas, o índice Ibovespa tem registrado um movimento de valorização sem precedentes, alcançando repetições sucessivas de máximas históricas e rompendo níveis anteriormente considerados altos para o mercado acionário brasileiro. Esse desempenho tem sido impulsionado por um significativo fluxo de capital estrangeiro direcionado à B3, refletindo, entre outros fatores, a busca de investidores internacionais por ativos de mercados emergentes e o apetite por segmentos representativos da economia brasileira, como companhias exportadoras e empresas de commodities, sobretudo em virtude das inseguranças trazidas pela condução da política externa de Donald Trump. Em diferentes sessões de pregão, observou-se a entrada robusta de recursos externos, que contribuiu para volumes financeiros elevados e renovação dos recordes do índice em R$ 180 mil pontos ou mais em determinados momentos de negociação.
Manutenção da Selic pelo Copom, sinalização de corte futuro e mínimo histórico do desemprego
No recente encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central decidiu manter a taxa Selic em 15% ao ano, patamar que representa um nível elevado no contexto histórico recente e que foi reiterado de forma unânime pelos membros do colegiado. Ainda assim, na comunicação oficial o Copom incluiu indicações de que, se as projeções para inflação e outros indicadores se confirmarem, o ciclo de flexibilização da política monetária poderá ser iniciado em reunião subsequente, no primeiro trimestre deste ano. Esse tom sereno quanto ao ritmo e à magnitude de possíveis cortes sinaliza uma postura cautelosa na condução da taxa básica de juros, enfatizando a necessidade de continuidade no monitoramento de indicadores-chave antes de ajustes.
Paralelamente, dados recentes divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a taxa de desemprego no Brasil chegou a 5,1% no final de 2025, marcando a menor taxa da série histórica iniciada em 2012. A média anual também atingiu o nível mais baixo registrado, com aumento do número de ocupados e expansão da renda média real dos trabalhadores, reforçando a percepção de um mercado de trabalho mais robusto e dinâmico no último ano.
Essa combinação de manutenção da taxa de juros com perspectiva de cortes futuros, juntamente com indicadores de mercado de trabalho em patamares historicamente baixos, nos faz refletir se realmente um corte de juros (seja de que magnitude for) é realmente viável. O boletim Focus tem trazido a projeção dos economistas para a Selic em 12% no final de 2026. Um otimismo exacerbado? Veremos.
Estados Unidos
O Pivot do Petróleo: A Reforma da Lei de Hidrocarbonetos e a Abertura ao Capital Privado.
O início de 2026 marcou uma ruptura drástica na política venezuelana com a "Operação Resolução Absoluta", que resultou na captura de Nicolás Maduro por forças dos EUA e na ascensão de Delcy Rodríguez à presidência interina. Embora o país viva sob intervenção, Rodríguez adotou uma postura de resistência pública para consolidar sua base interna, declarando enfaticamente em um encontro com petroleiros que a Venezuela não aceitará mais "ordens de Washington". Essa retórica de soberania busca equilibrar a imagem do governo diante das forças armadas e dos trabalhadores do setor, enquanto, nos bastidores, o país negocia pragmaticamente a liberação de recursos e a reabertura de sua economia ao mercado internacional.
O pilar dessa nova fase econômica é a profunda reforma da Lei de Hidrocarbonetos, cujas discussões oficiais foram iniciadas no parlamento em 22 de janeiro de 2026. O projeto representa um desmonte das políticas de nacionalização da era Chávez ao propor autonomia total para que empresas privadas, inclusive estrangeiras, operem campos de petróleo e gerenciem suas próprias receitas. A proposta prevê contratos de até 15 anos e permite que as petroleiras exportem diretamente o óleo, rompendo o monopólio de comercialização da estatal PDVSA, uma mudança que advogados alertam entrar em conflito direto com a Constituição vigente no país.
Apesar do tom desafiador de Delcy Rodríguez contra a influência americana, a realidade financeira impõe um pragmatismo comercial inevitável. Como parte dos novos acordos energéticos, os EUA efetuaram o pagamento de aproximadamente US$ 300 milhões pela compra dos primeiros carregamentos de barris de petróleo venezuelano destinados às refinarias norte-americanas. Esse fluxo de capital, embora originado de uma transação comercial, foi estrategicamente utilizado pelo governo interino para estabilizar o valor do bolívar. Assim, a Venezuela de janeiro de 2026 caminha em uma linha tênue: enquanto a presidência clama por autonomia, o setor energético torna-se o motor de uma troca direta, onde o fornecimento de até 50 milhões de barris garante o ingresso de recursos essenciais para a sobrevivência econômica do país sob a nova gestão.
O novo presidente do FED
A nomeação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve, hoje um dos diretores votantes do FOMC, foi recebida de forma neutra pelo mercado dado que seu nome era um dos mais cotados pela Casa Branca. Nas últimas reuniões, Warsh se mostrou um dos mais favoráveis a uma flexibilização mais agressiva da política monetária citando, principalmente, os riscos do mercado de trabalho mais fraco e também o potencial de ganhos de produtividade da IA que possam se traduzir em um perfil mais benigno para a inflação.
Apesar do comunicado da última decisão do Fed confirmar uma pausa nos cortes e um retorno à postura data-driven mais dura para as próximas reuniões, o mercado ainda projeta pelo menos mais dois cortes até o final de 2026. A confirmação de Warsh para a presidência do Fed leva a crer que a expectativa do mercado é, de fato, a mais plausível, pois o diretor já demonstrou bastante alinhamento à lógica de Trump e seu desejo por taxas de juros ainda mais baixas, tendo em vista os sinais de alerta da relação Dívida/PIB americana e o perfil dos vencimentos majoritariamente de curto prazo, que será ainda mais afetado pela vigência da Big Beautiful Bill e demais políticas fiscais do governo federal americano. Esperamos uma curva de juros americana cada vez mais inclinada, com queda nas taxas curtas e pressão altista cada vez maior nos vencimentos mais longos.
China
China consegue driblar os efeitos do “tarifaço” de Trump
O ano se iniciou com bastante entusiasmo sobre a o setor de tecnologia chinês ligado à IA, com a estreia na bolsa da fabricante de chips Biren, cujo papel subiu 76% em seu primeiro dia de negociação, além do anúncio de pedido de IPO da Baidu na bolsa de Hong Kong.
Em janeiro, a China divulgou o saldo da balança comercial de 2025, o qual registrou superávit recorde de US$ 1,189 trilhão, com um aumento nas exportações de 5,5%. Esse número surpreende, pois, demonstra a resiliência da capacidade comercial chinesa frente ao choque tarifária aplicado pelos EUA no ano passado, cujo objetivo era de restringir significativamente o fluxo de entrada de produtos chinesas na economia americana, num esforço não só de protecionismo aos seus próprios produtores, como também de impactar economicamente o regime chinês.
O setor exportador da China tem sido o foco de suas autoridades na tentativa de contrabalancear os efeitos de um mercado imobiliário bastante fragilizado, somado a uma demanda interna ainda fraca, apesar dos estímulos fiscais e monetários empregados nos últimos anos. Esse cenário adiciona uma camada extra nas tensões tarifárias pois demonstra que, apesar das tarifas sobre produtos chineses ainda em níveis agressivos, elas não têm cumprido com o seu objetivo inicial, o que pode levar o governo americano a não só revisar sua estratégia, como instituir tarifas ainda mais altas ou alguma outra restrição às empresas chinesas. O efeito nos mercados foi positivo, o yuan permaneceu estável após a notícia, enquanto ambos o Shanghai Composite e o CSI300 subiram mais de 1%.
Global
Abertura de Mercados e Desafios Diplomáticos: O Novo Cenário do Acordo Mercosul-UE
As negociações para o tratado de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia estendem-se por mais de duas décadas, refletindo a complexidade de integrar dois dos blocos econômicos mais significativos do planeta. Iniciado formalmente nos anos 90, o processo atingiu um marco importante com o acordo político em 2019, mas logo enfrentou novos impasses. As principais barreiras históricas incluíram o protecionismo do setor agrícola europeu e a crescente preocupação internacional com políticas ambientais na América do Sul, o que exigiu anos de diálogos adicionais para ajustar exigências de sustentabilidade e garantias de preservação, visando criar uma área de livre comércio para cerca de 700 milhões de pessoas.
Atualmente, o acordo vive um momento de avanço concreto, com a perspectiva de que entre em vigor de forma provisória a partir de março de 2026. No entanto, o cenário ainda exige cautela diplomática: enquanto o Brasil trabalha para desmistificar a imagem de "bicho-papão" perante os produtores rurais europeus, garantindo que a competitividade brasileira não é uma ameaça predatória, a União Europeia avalia trâmites internos que podem gerar atrasos. Um dos principais pontos de atenção é o possível envio do texto ao Tribunal de Justiça da União Europeia, uma medida jurídica que, embora garanta segurança institucional, tem o potencial de postergar a implementação definitiva do tratado.

Para a economia brasileira, a consolidação deste acordo representa uma oportunidade histórica de diversificação e expansão. Segundo a ApexBrasil, a abertura de mercado beneficiará diretamente 543 produtos brasileiros, permitindo que setores do agronegócio e da indústria ganhem fôlego com a redução de barreiras tarifárias e burocráticas. Além do aumento imediato no volume de exportações, o impacto positivo se estende à atração de investimentos estrangeiros e à necessidade de modernização da infraestrutura nacional, integrando o Brasil de forma mais profunda nas cadeias globais de valor e consolidando sua posição como parceiro estratégico no fornecimento sustentável de alimentos e energia para o mercado europeu.
Cifras Estratégicas: Como o Acordo Redesenha o Mapa Comercial Brasileiro
As projeções do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) indicam que o Brasil, como a maior economia do bloco latino-americano, será o principal beneficiário da integração com a União Europeia. Um dos dados mais expressivos é a capacidade de atração de capital: estima-se que o país consiga atrair um volume de investimentos 1,49% superior ao que seria registrado sem o acordo, superando o rescimento proporcional esperado para os demais membros do Mercosul e para a própria União Europeia. Esse influxo de capital é acompanhado por uma expansão robusta no fluxo comercial, com a expectativa de que o volume tanto das exportações quanto das importações apresente um aumento de 3% até o ano de 2040.

Ao observar a trajetória de crescimento projetada, nota-se um dinamismo interessante na balança comercial brasileira. De acordo com os gráficos de tendência para o período de 2024 a 2040, as importações devem apresentar um crescimento inicial mais acelerado, atingindo uma marca de 2,6% já em 2030. Embora essa subida rápida nas importações possa sugerir um desafio imediato, ela é acompanhada por uma curva de exportações em ascensão constante, que deve convergir para o patamar de 3% ao final do período projetado. Esse equilíbrio demonstra que a abertura comercial não apenas facilita a entrada de produtos estrangeiros, mas projeta o Brasil para um novo nível de relevância nas vendas externas a longo prazo.
Para além dos números absolutos, o impacto qualitativo na estrutura produtiva nacional é um ponto central da análise de especialistas. Segundo o economista Carlos Honorato, da FIA Business School, o acesso a equipamentos e máquinas com preços reduzidos é um motor essencial para aprimorar a produção interna. Embora a entrada de produtos europeus signifique um aumento na concorrência para os fabricantes nacionais, esse cenário atua como um catalisador de eficiência, pressionando as empresas locais a buscarem maiores índices de produtividade e padrões técnicos internacionais. industrial brasileira de forma estrutural.
São Paulo, 02 de fevereiro de 2026.
Leonardo Losi
Lucas França
Yasmin Costa


