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Aço e algoritmos

Aço e Algoritmos: a economia física por trás do mundo digital

Durante anos, a palavra "digitalização" carregou consigo uma promessa que parecia quase filosófica em sua essência; a de uma desmaterialização progressiva da economia, como se cada avanço tecnológico nos afastasse um pouco mais da “solidez” do mundo físico. Arquivos digitais substituiriam pilhas de papel, videoconferências eliminariam a necessidade de viagens intermináveis, softwares sofisticados tornariam obsoletas estruturas organizacionais que antes exigiam concreto e metal, e a inteligência artificial, no auge de sua promessa, transformaria radicalmente o trabalho, o conhecimento e a própria produtividade como os conhecíamos. Parecia, enfim, que a economia do futuro seria cada vez mais leve: menos fábricas, menos escritórios, menos ativos físicos e, acima de tudo, mais código.

No entanto, diante dos nossos olhos, um paradoxo fascinante começa a se desenhar com contornos cada vez mais nítidos, desafiando essa narrativa otimista de imaterialidade: quanto mais digital a economia se torna, mais capital físico ela parece exigir para construir e sustentar a gigantesca infraestrutura que torna possível a própria existência do digital. A inteligência artificial, por exemplo, não existe em um “vácuo”; ela demanda data centers, e esses data centers, por sua vez, exigem uma longa cadeia de elementos materiais, como terrenos vastos, concreto armado, sistemas de refrigeração complexos, transformadores de energia e servidores que processam informações em escala inimaginável. Esses servidores dependem de chips, cuja fabricação requer fábricas altamente especializadas e investimentos bilionários, e toda essa imensa estrutura, do primeiro ao último elo, necessita de eletricidade em volumes cada vez mais colossais, o que, por sua vez, pressiona os sistemas de geração, transmissão, distribuição e armazenamento de energia em todo o planeta. O algoritmo, em sua essência matemática, pode ser intangível, mas a infraestrutura que permite que ele exista, que o alimenta e o mantém em funcionamento, essa sim é profundamente física, e talvez seja exatamente essa a grande história econômica que definirá este ciclo histórico.

O paradoxo da economia digital

A primeira e talvez mais fundamental mudança de perspectiva que precisamos operar é justamente esta: digital não significa, de forma alguma, imaterial, e essa distinção, que à primeira vista pode parecer sutil, carrega consequências econômicas enormes. Uma simples consulta a um modelo de inteligência artificial, para o usuário comum, parece acontecer em uma interface limpa e quase abstrata; digitamos uma pergunta e, em segundos, recebemos uma resposta elaborada, como se um assistente invisível estivesse ali, pronto para nos atender. Por trás dessa experiência aparentemente mágica, no entanto, existe uma cadeia física extraordinariamente complexa, composta por computadores interligados, chips de última geração, racks metálicos, cabos de fibra óptica que atravessam continentes, sistemas de refrigeração que consomem água e energia em proporções monumentais, edifícios inteiros projetados para abrigar essa parafernália, subestações elétricas, redes de transmissão e toda a infraestrutura de telecomunicações que garante a conectividade global. O crescimento exponencial da inteligência artificial está tornando essa infraestrutura cada vez mais central para a economia global, e os números começam a dar a dimensão exata desse fenômeno: segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o consumo global de eletricidade dos data centers deve mais que dobrar até 2030, chegando a aproximadamente 945 TWh, e, no cenário-base da organização, esse consumo cresce cerca de 15% ao ano entre 2024 e 2030, um ritmo mais de quatro vezes superior ao crescimento do consumo de eletricidade dos demais setores da economia. Em outras palavras, a economia digital, longe de se libertar das amarras do mundo físico, está criando uma nova e vigorosa demanda por ativos materiais, e não estamos falando apenas de servidores em sentido restrito – estamos falando de capital físico em escala verdadeiramente industrial.

O algoritmo precisa de um lugar para existir

Existe uma maneira bastante simples, mas ao mesmo tempo profundamente reveladora, de entender essa transformação estrutural que estamos testemunhando: um algoritmo, em sua definição mais pura, é apenas uma sequência de instruções lógicas, mas uma inteligência artificial em escala comercial, daquelas que atendem milhões de usuários simultaneamente, precisa de capacidade computacional imensa, e essa capacidade, por sua vez, demanda infraestrutura física em proporções que poucos imaginavam há apenas alguns anos. Essa diferença entre a lógica abstrata do algoritmo e a materialidade da infraestrutura pode parecer apenas semântica, mas, do ponto de vista econômico, ela é absolutamente monumental, pois altera por completo a equação de custos e investimentos do setor.

Durante boa parte da revolução do software, uma empresa podia desenvolver um produto digital, distribuí-lo para milhões de usuários com um custo marginal relativamente baixo e escalar sua operação sem grandes barreiras físicas; agora, porém, a corrida pela inteligência artificial está adicionando uma camada inteiramente nova a essa equação, na qual cada salto significativo de capacidade computacional exige mais computação, mais energia e mais infraestrutura física, criando um ciclo de investimento que se assemelha mais à expansão de uma siderúrgica do que à de uma startup de aplicativos. A própria IEA observa que, enquanto data centers convencionais normalmente utilizam entre 10 MW e 25 MW de potência, as instalações de IA em escala hyperscale podem facilmente superar os 100 MW, o que demonstra como a escala mudou radicalmente. A economia digital, portanto, está desenvolvendo uma característica bastante antiga e, de certa forma, familiar à economia industrial: quem quer produzir mais precisa aumentar sua capacidade produtiva, só que agora essa capacidade produtiva é computacional, e sua expansão exige investimentos tão pesados quanto os de qualquer planta fabril.

Data centers: quando software vira concreto

Talvez nenhum ativo represente melhor esse paradoxo central do que o data center, essa estrutura que, para o usuário final, praticamente não existe (é apenas um lugar distante e abstrato onde seus dados residem), mas que, para a economia real, se configura como um enorme projeto de infraestrutura, com custos, prazos e desafios dignos das maiores obras de engenharia civil.

Em 2025, o CAPEX de cinco grandes empresas de tecnologia ultrapassou a marca de US$ 400 bilhões, segundo análise da IEA, um montante impressionante impulsionado em grande parte pelos investimentos relacionados à infraestrutura de data centers, e a organização estima que esse valor aumentará novamente em 2026, consolidando uma tendência que parece não ter freio. A dimensão financeira desse fenômeno é crucial porque muda completamente a natureza da discussão sobre tecnologia: não estamos mais falando apenas de empresas de software tentando criar o próximo aplicativo inovador ou a próxima plataforma viral, mas sim de gigantes tecnológicos que precisam financiar, de forma recorrente e em escalas gigantescas, uma lista interminável de ativos físicos; data centers, servidores, chips, redes de interconexão, sistemas de refrigeração, terrenos, equipamentos elétricos, geração de energia e conexões à rede elétrica

A fronteira entre tecnologia e infraestrutura, que antes parecia nítida e bem definida, começa a desaparecer diante dos nossos olhos, e isso tem uma consequência macroeconômica profunda: a inovação digital, ao menos neste ciclo, está gerando uma onda de investimento físico tão expressiva quanto as grandes ondas de industrialização do passado.

A nova corrida é por eletricidade

Se a computação é, sem dúvida, o motor da inteligência artificial, a eletricidade é uma de suas matérias-primas mais essenciais e, talvez, esse seja o ponto mais importante e revelador de toda essa tese, pois coloca a energia no centro do debate sobre o futuro da tecnologia. A IEA projeta que a demanda global por eletricidade crescerá 3,6% em 2026 e 3,8% em 2027, após um crescimento de 3% em 2025, e os principais motores desse aumento são justamente a indústria, os veículos elétricos, os sistemas de climatização e, claro, os data centers, que emergem como um dos vetores mais dinâmicos desse processo. Nos Estados Unidos, a transformação é ainda mais evidente e intensa: a demanda elétrica deve crescer quase 2% ao ano entre 2026 e 2030, e os data centers podem responder por aproximadamente metade desse crescimento, o que produz uma inversão de perspectiva verdadeiramente interessante. Durante décadas, a tecnologia foi associada à ideia nobre e inspiradora de fazer mais usando menos recursos, de aumentar a eficiência e reduzir o consumo, mas agora uma das tecnologias mais importantes da história está, paradoxalmente, aumentando a demanda por um dos recursos mais básicos e essenciais da economia: a energia.

Quando a energia se torna escassa em determinados pontos da rede, o valor econômico deixa de estar apenas na capacidade de gerar eletricidade e passa a estar também, e de forma cada vez mais decisiva, na capacidade de entregá-la no lugar certo, na hora certa e com a confiabilidade necessária.

O gargalo escondido está na rede

É precisamente aqui, no complexo e muitas vezes negligenciado mundo das redes de transmissão e distribuição, que a tese se torna ainda mais interessante e desafiadora, pois não basta construir um data center moderno e equipado com a mais avançada tecnologia, é preciso, antes de tudo, conectá-lo à rede elétrica de forma segura e estável. A IEA estima que mais de 2.500 GW de projetos de geração renovável, armazenamento e grandes cargas estejam atualmente parados em filas de conexão à rede ao redor do mundo, um gargalo impressionante que revela como a infraestrutura elétrica existente está defasada em relação às novas demandas. Para acompanhar a demanda até 2030, o investimento anual em redes elétricas precisaria crescer cerca de 50% em relação aos aproximadamente US$ 400 bilhões atuais, o que evidencia a magnitude do desafio que temos pela frente, e esse é um gargalo tipicamente físico, que não pode ser resolvido com uma atualização de software ou com um novo algoritmo brilhante. Uma linha de transmissão não pode ser baixada da nuvem, uma subestação elétrica não pode ser atualizada com um simples patch, e um transformador não pode ser replicado instantaneamente como se fosse um código aberto.

Construir infraestrutura leva tempo, planejamento, recursos e, acima de tudo, paciência, e esse tempo, justamente por sua escassez, pode se tornar um dos ativos econômicos mais valiosos da próxima década. A própria IEA estima que novos projetos de rede podem levar de 5 a 15 anos entre as fases de planejamento, licenciamento e construção, enquanto um novo data center pode ser erguido em aproximadamente 1 a 3 anos, e essa diferença temporal cria um problema clássico de oferta e demanda, no qual a demanda pode crescer muito mais rápido do que a infraestrutura necessária para atendê-la, gerando gargalos, pressões inflacionárias e oportunidades de investimento em pontos específicos da cadeia.

Chips, IA e eletrificação

Existe ainda outro elemento físico, muitas vezes escondido atrás da cortina de fumaça das interfaces digitais, que é fundamental para cada avanço da inteligência artificial: o semicondutor, esse pequeno pedaço de silício que se tornou o verdadeiro petróleo do século XXI e cuja produção depende de uma cadeia industrial complexíssima. A inteligência artificial precisa de capacidade computacional especializada, e essa capacidade vem de chips produzidos em cadeias industriais que exigem fábricas ultramodernas, equipamentos de precisão, materiais raros, energia elétrica em abundância, água em grandes quantidades e uma logística impecável para conectar todos esses elos. Isso significa que a corrida pela IA não é apenas uma disputa intelectual entre cientistas e engenheiros de software, mas também, e cada vez mais, uma corrida pela capacidade industrial de produzir hardware na escala necessária para sustentar o crescimento exponencial da computação.

A pergunta que norteia essa nova fase, portanto, deixa de ser apenas "quem tem o melhor modelo?" e passa a incluir, com peso crescente, "quem consegue produzir e colocar em operação a quantidade necessária de computação para atender à demanda global?", e essa mudança é importante porque introduz uma velha e conhecida variável econômica no centro de uma indústria que se pretendia puramente digital: a capacidade instalada. Quando a tecnologia cresce mais rapidamente do que a infraestrutura que a sustenta, os gargalos físicos podem capturar uma parcela desproporcional do valor econômico, e a IEA estima que o investimento global em energia chegou a uma trajetória recorde, com cerca de USD 3,3 trilhões previstos para 2025, dos quais aproximadamente USD 2,2 trilhões destinados a tecnologias de energia limpa, redes, armazenamento e veículos elétricos. Ao mesmo tempo, as empresas de tecnologia estão elevando seus próprios investimentos em infraestrutura de forma acelerada, e é como se duas revoluções estivessem acontecendo simultaneamente; a revolução computacional (impulsionada pela IA), e a revolução da eletrificação (impulsionada pela transição energética), e ambas, curiosamente, precisam de infraestrutura física robusta para se concretizarem. Isso pode ajudar a explicar por que a economia do futuro pode ser, paradoxalmente, mais intensiva em capital físico do que a própria economia digital que a precedeu, invertendo a narrativa dominante das últimas décadas.

No Brasil, o físico também está no agro, na indústria e na logística

Essa lógica material que estamos delineando, no entanto, não se encerra nos limites dos data centers e dos chips, pois ela se estende a praticamente todos os setores da economia, inclusive aqueles que parecem mais distantes do universo digital. A digitalização do agronegócio, por exemplo, não elimina a terra nem a torna menos relevante; ao contrário, ela pode aumentar o valor da terra produtiva, da irrigação, do armazenamento e da logística, criando uma sinergia entre o digital e o físico que amplifica a importância de ambos. Da mesma forma, a automação industrial não elimina as fábricas, mas sim aumenta a necessidade de equipamentos sofisticados, robótica, sensores, energia confiável e instalações produtivas modernas, enquanto o comércio eletrônico, longe de tornar a infraestrutura obsoleta, exige centros de distribuição cada vez maiores, estradas bem conservadas, portos eficientes, aeroportos modernos e sistemas logísticos integrados que possam dar conta de uma demanda crescente e fragmentada. Em outras palavras, a informação pode viajar à velocidade da luz através de cabos de fibra óptica, mas os bens físicos, esses continuam precisando atravessar o mundo material, com todas as suas fricções, custos e limitações, e essa é uma distinção fundamental que muitas vezes é esquecida nas discussões mais otimistas sobre a economia digital.

Uma economia mais conectada e digitalizada pode ser, simultaneamente, uma economia mais dependente de infraestrutura física, e para o Brasil essa discussão tem uma dimensão particularmente interessante, pois o país possui ativos físicos que podem ganhar importância estratégica em um mundo mais dependente de energia, recursos naturais, produção e infraestrutura. Mas existe uma diferença crucial entre possuir um recurso natural e possuir a infraestrutura necessária para transformá-lo em valor econômico real: energia precisa de transmissão para chegar aos centros de consumo, produção agrícola precisa de armazenagem e transporte para chegar aos mercados, mineração precisa de logística para escoar sua produção, indústria precisa de energia confiável para operar, e data centers precisam de conectividade e eletricidade estável para funcionar. Em 2025, os investimentos públicos e privados em transporte e logística no Brasil chegaram a R$ 76,5 bilhões, segundo dados divulgados pelo governo federal com base no Livro Azul da Infraestrutura da Abdib, o maior nível desde 2015, o que ajuda a colocar a discussão em perspectiva e a lembrar que a transformação digital não acontece fora da economia física brasileira, ela acontece sobre ela, a partir dela e, em muitos aspectos, graças a ela.

O novo mapa do capital

Talvez a grande mudança de paradigma que estamos vivendo possa ser resumida nesta constatação aparentemente simples, mas carregada de implicações profundas: durante a primeira fase da revolução digital, grande parte da atenção, dos investimentos e do valor de mercado esteve concentrada nos donos das plataformas, dos aplicativos e dos algoritmos, aqueles que dominavam a interface com o usuário e capturavam a atenção e os dados das massas. Agora, porém, uma pergunta diferente começa a ganhar relevância e a moldar as decisões de investimento dos grandes agentes econômicos: quem controla os gargalos físicos necessários para escalar essas tecnologias em uma escala verdadeiramente global? Essa pergunta abrange uma lista extensa e diversificada de ativos como energia, terrenos, data centers, chips, fábricas, cabos submarinos, logística e infraestrutura de todos os tipos, e a resposta a ela pode definir os vencedores e perdedores da próxima década.

Isso não significa, evidentemente, que todo ativo físico será automaticamente um vencedor, nem tampouco que toda empresa de tecnologia perderá valor ou se tornará obsoleta, pois a tese é mais interessante, mais matizada e mais rica do que essa dicotomia simplista. Ela sugere, na verdade, que o valor econômico pode se distribuir de forma mais ampla e equilibrada ao longo de uma cadeia muito maior do que a interface digital faz parecer, na qual o aplicativo, a plataforma ou o serviço digital é apenas a ponta visível de um iceberg imenso, e atrás dele existe uma longa cadeia de capital físico que, até recentemente, permanecia invisível para a maioria dos observadores. Existe, porém, um cuidado importante que precisamos ter para não cair em simplificações grosseiras...

O risco de confundir inovação com desmaterialização

Seria um erro grave, e potencialmente custoso, transformar essa tese em uma aposta simplista de que "tudo que é físico vai subir" ou de que a infraestrutura tradicional automaticamente se valorizará com a digitalização, pois a eficiência tecnológica também importa e pode, em muitos casos, reduzir a pressão sobre os recursos físicos. Modelos de inteligência artificial mais eficientes, por exemplo, podem reduzir o consumo de computação por tarefa, melhorias contínuas de hardware podem aumentar a capacidade de processamento por watt consumido, softwares sofisticadospodem otimizar a utilização dos equipamentos existentes, e novas tecnologias emergentes podem reduzir significativamente os custos de infraestrutura ao longo do tempo. Além disso, a própria IEA destaca que, apesar do rápido crescimento dos data centers, eles ainda devem representar menos de 10% do crescimento global da demanda de eletricidade entre 2024 e 2030 no cenário-base, o que significa que a indústria, a eletrificação dos transportes, os veículos elétricos e a climatização continuam sendo motores maiores desse aumento de consumo.

A questão, portanto, não é dizer que a inteligência artificial explica tudo ou que ela é a única força relevante nesse cenário, mas sim perceber que a IA está acontecendo dentro de uma transformação muito maior e mais abrangente, na qual a economia como um todo está ficando mais elétrica, mais computacional e mais dependente de infraestrutura física de ponta. Talvez, e aqui reside a provocação mais importante que podemos fazer a partir dessa análise, a próxima vantagem competitiva não esteja mais apenas no algoritmo em si, mas sim em tudo o que permite que esse algoritmo exista e funcione em escala.

A próxima vantagem pode estar atrás do algoritmo

Durante anos, olhamos para o mundo digital com admiração e curiosidade, e fizemos a pergunta que parecia ser a mais relevante da época: quem vai construir o melhor algoritmo, a plataforma mais inovadora, o modelo de inteligência artificial mais poderoso e preciso? A próxima década, no entanto, talvez nos exija uma pergunta diferente, menos glamorosa, mas igualmente decisiva: quem vai construir aquilo que permite ao algoritmo existir, funcionar e escalar, quem vai erguer a infraestrutura física que sustenta a computação em nuvem, quem vai gerar e transmitir a energia necessária para alimentar bilhões de operações por segundo, e quem vai garantir que todos os elos dessa cadeia estejam conectados de forma confiável?

Entenda: uma inteligência artificial, por mais avançada que seja, não vive apenas em código, não habita apenas o reino abstrato da matemática, ela vive em servidores físicos, que por sua vez vivem em data centers construídos com aço e concreto, que estão conectados a redes elétricas e de telecomunicações que dependem de geração, transmissão e distribuição em escala continental. Tudo isso, do primeiro ao último componente, depende de aço, cobre, concreto, semicondutores, energia, terra, água, máquinas e trabalhadores, e essa constatação, que à primeira vista pode parecer óbvia, torna-se revolucionária quando levada a sério em todas as suas implicações econômicas. O futuro pode parecer digital na tela do computador ou do smartphone, mas, por trás da tela, ele está sendo construído em escala industrial, com todos os custos, desafios e oportunidades que isso implica, e essa é a aparente contradição que pode definir o próximo ciclo de investimentos e de inovação: quanto mais a economia se digitaliza, mais importante e valiosa se torna a infraestrutura física que sustenta essa digitalização.

Talvez, no fim das contas, o próximo grande ciclo de crescimento não esteja apenas em quem cria o algoritmo mais brilhante, mas também, e de forma cada vez mais decisiva, em quem constrói o mundo onde esse algoritmo consegue funcionar, respirar e se multiplicar em escala global.

Fontes principais

A pesquisa priorizou fontes institucionais e dados recentes, especialmente a International Energy Agency, além do governo brasileiro, U.S. Census Bureau e Reuters para dados corporativos e de mercado.

São Paulo, 11 de agosto de 2026.

Blog
Por:
Victor Martinez
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