Blogs e Colunas

Ninguém brigou pela herança de Silvio Santos. E isso não foi por acaso.

A morte de Silvio Santos, em agosto de 2024, foi um marco emocional para o Brasil. Um comunicador único, um empresário improvável, um personagem que atravessou gerações. Mas, do ponto de vista empresarial e patrimonial, o que mais impressionou não foi o encerramento de uma era — foi a absoluta normalidade do dia seguinte.

Não houve manchetes sobre disputas familiares.
Não houve paralisação das empresas.
Não houve crise de governança.
Não houve ruído relevante no mercado.

O SBT seguiu operando. A Jequiti continuou vendendo. O Baú da Felicidade manteve sua lógica. Hotéis, imóveis e participações continuaram rodando. O conglomerado, avaliado à época em cerca de R$ 3,9 bilhões, atravessou o evento mais crítico possível para qualquer império empresarial — a morte do fundador — sem entrar em colapso.

Isso não é sorte.
Isso é projeto.

O erro mais comum: confundir pessoa com patrimônio

A maior parte dos empresários brasileiros constrói tudo em torno de si mesmo. O patrimônio cresce, as empresas prosperam, mas a lógica é sempre a mesma: tudo está no CPF do fundador, tudo depende da sua assinatura, da sua palavra e da sua presença.

Enquanto ele está vivo, isso parece funcionar.
Na ausência, vira um problema estrutural.

Silvio Santos fez o oposto. Em vez de concentrar poder e ativos na pessoa física Senor Abravanel, ele construiu uma arquitetura jurídica, societária e de governança que separava claramente o indivíduo do sistema.

Na prática, isso significa que o “dono” do patrimônio não era ele — era a estrutura que ele desenhou.

Essa distinção muda tudo. Quando o patrimônio pertence a uma estrutura, e não diretamente a uma pessoa, a morte deixa de ser um evento operacional. Ela passa a ser apenas um evento humano.

A empresa continua.
As decisões continuam.
As regras continuam.

Por que inventários destroem valor no Brasil

No Brasil, inventário não é apenas um processo jurídico. Ele costuma ser um processo emocional, político e econômico altamente destrutivo.

Quando um empresário morre com patrimônio todo concentrado no CPF, ocorre uma sequência quase automática de problemas. Bens ficam bloqueados, contas são congeladas, decisões estratégicas ficam suspensas. Sócios, executivos e fornecedores passam a conviver com incerteza. Funcionários sentem o clima mudar. O negócio, que antes tinha direção clara, entra em modo de espera.

Enquanto isso, herdeiros — muitas vezes despreparados, emocionalmente fragilizados ou com visões completamente diferentes — passam a disputar controle, poder e recursos. Mesmo quando não há má-fé, há conflito. E conflito custa caro.

O valor que levou décadas para ser construído pode se deteriorar em poucos anos. Às vezes, em poucos meses.

O problema não é a herança.
O problema é a ausência de regras antes dela.

Sucessão não é um evento, é um processo

Existe uma ideia equivocada de que sucessão começa quando alguém morre. Na verdade, sucessão começa quando alguém entende que não será eterno.

Silvio Santos preparou a sucessão ao longo do tempo. Não apenas no papel, mas na prática. Estruturas societárias foram criadas, papéis foram definidos, lideranças foram treinadas, instâncias de decisão foram organizadas.

Isso permite algo fundamental: a continuidade independe doindivíduo.

Quando a sucessão é tratada apenas como um documento — um testamento isolado — ela resolve pouco. Quando é tratada como um sistema vivo, ela protege o patrimônio, a família e o negócio.

A lógica da “estrutura acima da pessoa”

Esse é o conceito central que diferencia patrimônios frágeis de patrimônios resilientes.

Estrutura acima da pessoa significa que:

  • o patrimônio não depende do humor do fundador
  • as decisões não dependem de relações familiares momentâneas
  • conflitos têm caminhos claros de resolução
  • o sistema funciona mesmo sob estresse

É exatamente essa lógica que permite que empresas atravessem crises, mudanças de geração e ciclos econômicos sem perder identidade nem valor.

Não se trata de retirar poder da família.
Trata-se de organizar o poder.

Arquitetura patrimonial: muito além da sucessão

Uma boa arquitetura patrimonial não existe apenas para o “dia seguinte à morte”. Ela existe para o dia a dia.

Ela organiza o presente tanto quanto protege o futuro.

Governança, segregação patrimonial, regras de gestão, políticas de risco, conselhos, acordos societários — tudo isso serve para evitar decisões impulsivas, conflitos internos e concentração excessiva de risco.

Quando o patrimônio está bem arquitetado, ele deixa de ser um peso emocional e vira uma ferramenta estratégica. Ele trabalha a favor dafamília, e não contra ela.

O papel das estruturas de asset management

É aqui que entram as estruturas profissionais de asset management. Não como um luxo financeiro, mas como uma necessidade de organização.

Um bom asset management não se limita a escolher investimentos. Ele define mandatos, regras, limites, responsabilidades e objetivos. Ele cria um ambiente em que o patrimônio pode crescer, ser protegido e atravessar ciclos sem depender de decisões individuais ou improvisadas.

Na prática, isso significa transformar patrimônio em sistema.

Na Vela, por exemplo, o trabalho começa antes da alocação. Começa na compreensão da estrutura, da dinâmica familiar, dos objetivos de longo prazo e dos riscos reais. A partir disso, constrói-se uma arquitetura que conecta estratégia, gestão e governança.

O resultado não é apenas performance financeira. É previsibilidade, continuidade e tranquilidade.

O verdadeiro conceito de legado

Existe uma frase que resume tudo isso:

Legado não é o que você constrói.
É o que continua funcionando quando você não está mais lá.

Prédios podem ser vendidos. Marcas podem se perder. Dinheiro pode evaporar em conflitos. Mas um sistema bem desenhado sobrevive às pessoas.

Silvio Santos não deixou apenas empresas. Ele deixou uma estrutura capaz de sustentar essas empresas sem ele.

A pergunta inevitável

Essa história não é sobre Silvio Santos.
Ela é sobre você.

Se algo acontecesse amanhã, o que ficaria?

Seus herdeiros herdariam um patrimônio organizado, com regras claras, governança definida e continuidade garantida?
Ou herdariam um problema caro, lento e emocionalmente destrutivo?

A resposta não depende do tamanho do seu patrimônio.
Depende da qualidade da sua arquitetura.

São Paulo, 17 de dezembro de 2025.

Blog
Por:
Victor Martinez
Compartilhe:

Conteúdos recentes